sexta-feira, janeiro 07, 2005

Lobo (não tão) Solitário

Lobo Solitário está de volta às bancas, agora pela editora Panini. Antes, já havia sido publicado pelas editoras Nova Sampa e Cedibra, mas ambas cancelaram o título antes de seu término. Criado por Kazuo Koike e Goseki Kojima, esse mangá narra a história de Itto Ogami, um ronin que vaga pelo Japão do período Edo junto com seu filho Daigoro, oferecendo seus serviços como mercenário assassino.

Publicado pela primeira vez no EUA na década de 80, Lobo Solitário pode ser considerado um dos pioneiros da invasão dos mangás que vemos hoje em dia no mercado de quadrinhos ocidental. Sua narrativa cinematográfica, detalhamento histórico, e belas cenas de ação, influenciaram fortemente vários autores ocidentais, cujo mais emblemático, é certamente Frank Miller.

Apesar de toda violência, destruição e morte presente nas páginas de Lobo Solitário, o grande tema dessa história é a relação de Itto Ogami com seu filho Daigoro, e por sua vez, a sintonia que há entre ele e seu pai. Tendo isso em vista, muitos podem estranhar o fato do mangá se chamar Lobo Solitário. Aqueles que conhecem o título original, Kozure Ookami (algo como “O lobo e seu filhote”), podem considerar o título em português uma péssima tradução, mas se levarmos em consideração que o “Lobo Solitário” não se refere à condição física do protagonista, mas sim a sua condição espiritual, então podemos dizer que o título em português não é tão desconexo assim.

A relação que há entre Daigoro e Itto Ogami está pautada pela estrutura arquetípica da sintonia do herói mitológico com seu pai divino-monstruoso, descrita por Joseph Cambell em O Herói de Mil Faces. O pai divino só pode aceitar seu filho herói se este for capaz de passar pelo rito de iniciação. Esse rito pode ser um teste, uma tarefa, uma jornada, ou até mesmo um duelo do filho com seu próprio pai. E daí vem o aspecto monstruoso dele, pois o pai não terá pena em matar o seu próprio filho se este não se mostrar capaz de pertencer a sua linhagem. Isso fica muito bem ilustrado na última história da primeira edição. Itto Ogami executa um teste de iniciação para seu filho. A escolha de Daigoro determina se ele retornará aos seios de sua própria mãe, e em termos espirituais, manterá sua pureza infantil, ou se passará à esfera do pai, representante do mundo adulto, violento, feroz.

E é esse processo que acompanharemos ao longo dos 28 volumes de Lobo Solitário. Através da jornada, a relação de Itto Ogami e Daigoro se tornará mais forte. Daigoro irá cada vez mais abandonar a esfera infantil e adentrar a esfera adulta, se tornando desta forma, seu próprio pai, e assim, fechando o ciclo que Itto Ogami iniciara. Tendo isso em vista, podemos concluir que Itto Ogami e Daigoro “são” o Lobo Solitário, um ser uno em sua multiplicidade.

Por fim, só me resta de dizer que o único defeito dessa edição da Panini de Lobo Solitário é seu preço, que mesmo para um gibi de 300 páginas está caro. Infelizmente a elitização é um mal da qual sofre todas a histórias em quadrinhos no Brasil hoje em dia, parece que os editores esqueceram que quadrinhos é cultura de massa. Mas se você tem treze reais por mês sobrando, e quer gastar com algum quadrinhos de qualidade, Lobo Solitário é a sua escolha.

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