domingo, abril 17, 2005

O Gralha - Dia do Pinhão

Na edição 19 da revista Wizard lançada neste mês de abril foi publicada uma HQ do Gralha intitulada Dia do Pinhão. Esta já é a terceira história em quadrinhos brasileira publicada na revista, em edições anteriores já fora publicado uma HQ dos irmãos Fabio Moon e Gabriel Bá, e uma do Lourenço Mutarelli.

O Gralha é um excelente exemplo de como se fazer uma história em quadrinhos de super-herói brasileiro. E a melhor forma de se fazer isso é com humor, pois não há como se levar a sério um super-herói ambientado no Brasil, por uma pura questão cultural. Se para os norte-americanos, uma pessoa sair por aí para combater o crime vestido com um colante com as cores da bandeira americana é motivo de orgulho e patriotismo, aqui no Brasil, se um cara fizer o mesmo com um uniforme com as cores da bandeira brasileira será motivo de chacota e gozação pro resto da vida. Devemos lembrar que a mentalidade do brasileiro difere muito da mentalidade do norte-americano. É como declarou Laerte uma vez em um artigo da Folha de S. Paulo na época do lançamento do albúm do Overman: "(...) Aqui no Brasil é impraticável fazer esse gênero a sério. Nossa língua é outra, não falamos super-heroiês (...)".

E os autores do Gralha sabem muito bem disso, pois apesar das histórias conterem a maioria dos clichês típicos do gênero super-herói, o personagem não se leva a sério. O alter-ego do Gralha, Gustavo Gomes, possui consciência do quão ridículo e non-sense é a idéia de super-herói (ainda mais um que sai por aí combatendo o crime vestido de passarinho), e o tempo todo está fazendo comentários irônicos a respeito, entre outras intervenções cômicas que há nas histórias. Assim, os clichês são subvertidos a favor do Gralha, transformando suas histórias em quadrinhos em aventuras divertidas e despretensiosas.

Mas voltemos a HQ do Gralha publicado na Wizard. Por se tratar de uma história curta, a trama é extremamente simples (mas não por isso simplória). Gustavo Gomes está tendo uma verdadeira maré de azar. Está desempregado, sem dinheiro e sem namorada. Pra piorar, vários dos vilões do Gralha resolvem estranhamente agir no mesmo dia. Agora cabe ao nosso super-herói curitibano descobrir o que está acontecendo.

A grande sacada desta história é que ela foge a uma das características do quadrinhos de super-herói norte-americano, o maniqueísmo. Hoje em dia, a clara divisão entre o bem e o mal está um pouco diluída nos quadrinhos das grandes editoras como a Marvel e a DC, mas se você voltar no tempo e pegar as histórias mais antigas, poderá notar essa divisão facilmente. O Super-Herói representa a bondade (mas segundo os valores norte-americanos), assim como o vilão é a encarnação do mau. Assim, você percebe que muitos dos super-heróis são bons pelo simples fato deles serem os super-heróis, e o vilões são maus pelo simples fato deles serem os vilões. Não há uma profundidade moral por parte dos personagens. E isso não acontece com o Gralha e seus antagonistas. A distinção clara entre o bem e o mal não é exatamente um conceito que se aplica nesta história.

Outra coisa legal nesta HQ é sua quadrinização. Cada página possui em média uns dez quadrinhos, o que permite uma narrativa extremamente dinâmica. Você pode sentir a ação se desenrolando entre os quadros, e sem, contudo, prejudicar os detalhes dos desenhos de José Aguiar, que diga-se de passagem, são muito bons. Sem falar que esse tipo de quadrinização dá uma fluência muito boa aos diálogos já que a fala do personagem segue junto temporalmente ao desenrolar de suas ações, ao invés de você ter um único quadro lotado de balões que possuem um tempo de fala maior do que o tempo da ação que o personagem está fazendo.

O único ponto negativo que consegui encontrar nesta HQ é justamente o fato dela ser curta, fazendo com que você fique com aquele gostinho de "quero mais". O que infelizmente não poderá ser saciado. É uma pena, pois o Gralha é um personagem que merecidamente deveria ter um gibi mensal. Suas histórias não devem em nada a dos super-heróis norte-americanos que abarrotam as bancas todo mês. E por vezes é até melhor que muito deles. Mas pelo jeito, nenhum editor parece pensar deste jeito pra tentar apostar no personagem. Mas fica aqui a esperança de que um dia isso mude e nós possamos conferir o Gralha mensalmente nas bancas ao lado do Homem-Aranha e do Superman.

Em tempo, se você não possui a Wizard nº19, O Dia do Pinhão pode ser lido online no site do José Aguiar.