quarta-feira, janeiro 29, 2003

Dagon - La Secta del Mar

Por Miyasa


Não é fácil levar às telas o horror cósmico criado e narrado por Howard Philips Lovecraft - um dos maiores mestres da literatura de horror. O ambiente em seus contos, assim como a atmosfera e o horror Indizível à espreita, levando os heróis à loucura, é desenvolvido com palavras difíceis de serem transmitidas através de imagens. Desde 1963 tenta-se filmar algum filme baseado na obra de Lovecraft. O resultado foram filmes B de péssima qualidade e gosto questionável.

Mas, durante todos esses anos até os dias de hoje, existiu um homem capaz de dirigir um filme adaptado de uma destas obras: Stuart Gordon. Para os mais atentos, Gordon dirigiu Re-animator e Do Além, até então os únicos filmes de Lovecraft que foram considerados pelo público de terror em geral - embora ainda não façam juz ao nome desse escritor excepcional.


Mas, em 2001, Dagon veio para mudar esse cenário para sempre. O filme, produzido pela Castelao Productions e Fantastic Factory, é bem feito, e o cenário foi reconstituído rigorosamente como é descrito nos contos de onde vieram as premissas básicas do filme: Dagon e A Sombra em Innsmouth. Do primeiro, saíram as informações sobre o templo e a morada de Dagon, um antigo deus do mar, assim como suas características; o segundo serviu de modelo para o enredo e a narrativa. Dir-se-ia que o filme teria sido uma perfeita adaptação de A Sombra em Innsmouth, não fossem algumas peculiaridades

Totalmente filmado na Espanha, o filme trata de Imboca, uma cidade litorânea que se prostou diante um deus maligno: Dagon.

Dois casais americanos partem para a Espanha em busca de férias. Paul, Barbara, Howard e Vicki. Ao se aproximarem a barco de um vilarejo, nas costas da Galícia, ouvem um canto, aparentemente religioso. Interessados, Howard e Barbara decidem ir até lá conhecer o lugar, mas, nesse instante, uma tempestade se forma e avança em segundos em direção ao barco. Howard perde o controle do leme e o barco acaba por bater o casco em uma rocha, ficando encalhado e prestes a afundar. Vicki está presa nos destroços e Paul parte com Barbara em um bote em direção ao vilarejo para buscar ajuda. Lá encontram a igreja de onde partia o canto: o templo da Ordem Esotérica de Dagon. Paul reconhece o símbolo da Ordem, pois sonhara com ele diversas vezes. A igreja, porém, estava vazia. Lá encontram um padre sombrio que se mostra disposto a ajudar. Convencem um pescador a levar Paul até o barco de seus amigos enquanto Barbara fica para procurar a polícia e os médicos; mas, chegando Paul no barco, Howard e Vicki haviam desaparecido.


Paul volta à cidade e descobre que Barbara também desaparecera. Paul se hospeda em um Hotel e começa assim uma série de mistérios e intrigas. Os moradores de Imboca são soturnos, alguns andam curvados, outros mancam, e quase todos cobrem seus rostos e mãos. Paul passa a ser perseguido por todos os moradores e encontra um velho bêbado que lhe conta a história da cidade e seu envolvimento com Dagon, o maligno deus do mar. Todos adoram Dagon, e para ele sacrificam os estrangeiros, esfolando-os vivos, e oferecem as mulheres para satisfazer e carregarem a semente do monstro.

Stuart Gordon recriou o ambiente com maestria. Em A Sombra em Innsmouth, a cidade Innsmouth é descrita de tal forma que seria possível construir uma perfeita maquete. Valendo-se dessa contribuição deixada por Lovecraft, o diretor criou uma cidade exatamente como deve ser uma cidade sujeita a Dagon: desolada, antiga, casas abandonadas, janelas cobertas, portas lacradas, ruas desertas, mares de telhados carcomidos e apodrecidos. Gordon reproduziu também, rigorosamente, o comportamento dos habitantes da cidade, seu modo de andar, suas vozes distorcidas, seu olhar estranho. Qualquer fã de Lovecraft se deleitará vendo as cenas que mostram tais detalhes.

Além de adaptar magistralmente, Gordon ainda ousou temperar a obra de Lovecraft, criando uma história de amor e paixão e revelando detalhes dos rituais à Dagon. Isso com certeza dá a idéia de que o filme se perderia por completo em clichês patéticos e cenas descabidas. Mas, longe disso, Gordon nos brinda com uma excelente manobra. Paul, em seus sonhos, vê Uxia, uma espécie de sacerdotisa de Dagon. Uxia, aparentemente em seus mal ultrapassados 15 anos, deseja Paul, mas este a rejeita pelo horror que há por trás de todos os habitantes de Imboca. Todos os estrangeiros têm um fim terrível à sua espera. As mulheres têm um fardo terrível a carregar. E Paul se ve diante de um inferno dantesco, o que o leva a uma decisão desesperada. Claro que os Inbocanos não permitirão que ele estrague seus planos... Há cenas de horror repugnante como o já mencionado esfolamento e, para os mais assanhados, pequenas cenas de nudez femininas e de erotismo. Tudo isso sem macular o clima sombrio da história original.


Há detalhes no filme muito semelhantes à A Sombra em Innsmouth, como o velho bêbado que era criança quando a Ordem Esotérica de Dagon chegou à cidade e que narra a história da cidade ao herói. A perseguição do herói pelos moradores da cidade foi reproduzida exatamente como se deu no conto.

Dagon é um filme surpreendente. Os poucos pontos fracos - efeitos especiais que deixam a cena demasiadamente artificiais e alguns clichês como carros que não funcionam bem na hora H - não são suficiente para superar a qualidade do roteiro. O final foi taxado de clichê por néscios que não conhecem A Sombra em Innsmouth; os que conhecem saberão que Lovecraft utilizou este "clichê" muito antes de famosos como George Lucas. Não esperem um final feliz, pois as obras de H. P. Lovecraft estão longe de serem propícias a isso.

As atuações superam o esperando, não deixando em nada a desejar. Ezra Godden é destaque interpretando Paul. Mostra com perfeição as transformações de personalidades do personagem que chega às raias da loucura: de um completo nerd a um lunático em busca de vingança. Talvez seja Paul a maior criação de Stuart Gordon. O personagem é muito bem desenvolvido e evolui muito no ritmo da história. Às vezes patético e fraco, outras cínico, outras ainda ardiloso e perspicaz. Raquel Mereño, como Bárbara, fez melhor do que o exigido pelo papel e Macarena Gomez mostrou a doentia obcessão de Uxia em seu olhar hipnotizante.

O sucesso de crítica que o filme obteve dá esperanças aos fãs de que novas adaptações tão boas, ou melhores, sejam feitas; embora o público não tenha sido ainda suficiente: muitos fãs de Lovecraft ainda não conhecem o filme. A mídia parece não ter apostado em mais uma adaptação de Lovecraft, ainda mais espanhola. Ainda assim, talvez esse seja o prenúncio de uma nova coqueluche de filmes lovecraftianos; dessa vez, com uma diferença: foi descoberto o caminho para a qualidade. Agora é só trabalhar.


O filme, claro, não dá a menor noção de toda a dimensão que vem por trás da lenda de Dagon e dos outros deuses. Eles pertencem a uma raça mais antiga que a Terra, se hospedaram aqui antes do homem, foram expulsos pelos Outros Deuses e vagam pelo nada, aguardando alguem que os invoquem. O mais famoso de todos esses deuses é o morto Cthulho, que aguarda na cidade de R'lyeh, sonhando.

Dagon é diversão garantida para o público geral. E um banquete dos deuses para os fãns de Lovecraft.

Curiosidade: O nome Dagon é citado 6 vezes no antigo testamento bíblico. O deus era adorado pelos filisteus, inimigos dos hebreus/judeus durante séculos. O povo hebreu foi escravizado e forçados a trabalhar nas portas do templo de Dagon. Foi nesse templo que Sansão, com olhos furados, derrubou duas colunas, destruindo todo o lugar e matando cerca de 3.000 pessoas, inclusive a si mesmo.

Ficha Técnica: Stuart Gordon - Diretor, Ezra Godden - Paul, Francisco Rabal - Ezequiel, Raquel Meroño - Bárbara, Macarena Gomez - Uxia, Brendan Price - Howard, Birgit Bofarull - Vicki, Uxía Blanco - Mãe de Ezequiel, Ferrán Lahoz - Sacerdote
Site Oficial: http://www.dagon.filmax.com

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1 Comments:

At 10:22 AM, Blogger Provisório said...

Não sei pra que tantas críticas boas nos sites de terror, a respeito desse filme.
Ele até os 30 min. é interessante. Depois vem o clichê: dos 4 viajantes, só 1 consegue se aventurar pela cidade. Estranho, não? Com tanta gente doida naquela cidade perseguindo o pobre homem, ele sempre consegue escapar.
Nota 2.

 

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