sexta-feira, novembro 11, 2005

A Voz do Fogo

Por Jose Carlos Neves (Publicado originalmente em 15/01/2003)

Uma viagem aos primórdios da História e até mesmo dos rudimentos da Linguagem, como no filme A Guerra do Fogo (In Quest of Fire); depois, é estar presente ao mundo hostil, sujo, corrupto, promíscuo, doentio, bárbaro e até mesmo nojento, da Idade Média, como em O Nome da Rosa, de Umberto Eco. A história de uma cidade, Northhampton, no interior da Inglaterra, num período de apenas 5.000 anos. A história da Magia, da Loucura, da Morte - e da Reencarnação, quem sabe... - Tudo isto pode ser dito de A Voz do Fogo, outra magnus-opus forjada no manancial inesgotável que é o teclado de Alan Moore, o mago barbudo que revolucionou os Quadrinhos. Aqui ele tenta sua primeira incursão de vulto no Mainstream, e como era de se esperar, o faz com maestria.

Publicada em 1996 pela já extinta Gollanz, somente na Inglaterra até então, o livro está para estreiar nos EUA e, por graças da inovadora Conrad Editora, saímos na frente.

Para quem conhece a obra original, era inconcebível que uma editora brasileira se interessasse na árdua tarefa de traze-la para nós, notadamente pela dificuldade de tradução do primeiro capítulo - na verdade são 12 contos distintos mas, quase imperceptível e ao mesmo tempo majestosamente entrelaçados. (Aliás, 12 também foi o número de episódios de Watchmen, a graphic-novel que revolucionou o gênero, ao desconstruir a mitologia dos Super-Heróis e 12 seriam também os episódios de sua infelizmente inacabada Big Numbers).

Nele, como no mencionado In Quest of Fire e em outras obras como O Senhor dos Anéis, Moore praticamente criou uma nova língua, ou a forma embrionária do que seria uma língua, ao contar a estória na primeira pessoa, a de um menino-sapiens, que tenta verbalizar - mesmo quando está só pensando - o que vivencia. Tenta narrar o inarrável, esboçando o que seriam as primeiras metáforas, ferramenta-mor do escritor.

A Conrad terceirizou a tradução e conseguiu um trabalho verdadeiramente profissional de Ludimila Hashimoto Barros.

A princípio, se estranha um pouco, é verdade. Mas é como ler Finnegan´s Wake, de Joyce, ou Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Mas sem os arcaísmos e excesso de erudição destes clássicos.

Vencido essas primeiras reminiscências, numa ousada viagem no tempo, mas não no espaço - como já mencionado, todos os relatos estão confinados às geografia e topografia de Northampton e numa clara elegia à sua cidade natal, depois de te-la execrado na Introdução de V de Vingança - Moore nos conta a História da Magia (com "h" mesmo, e não com "e", pois como ele mesmo diz "Isto é Ficção. Não é mentira) da subjetividade da natureza, da loucura do poeta John Clare (1841), da solidão dos bruxos, feiticeiras e xamãs, da morte, o porto compulsório de todo existir, e do fogo, que a tudo consome, até miticamente.

Ao final, já em 1995, temos o próprio autor como que submetendo-se a um "descarrego"existencial, quase nos implorando a voltar a sonhar, única forma de escapar dos círculos de superficialidade cada vez mais concêntricos e opressivamente decrescentes a que estamos encerrados. Clama-nos a resgatar a nossa antiga visão esotérica, aprisionada e enterrada pelos tempos materialistas e niilistas em que subvivemos, passivamente, o que pode ser a nossa real condenação ao "fogo eterno".

Obs: Para outras matérias sobre o mago barbudo de Northampton e um dos maiores roteiristas de Quadrinhos do mundo, veja meu site!

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